
Para debater os impactos das plataformas virtuais de apostas, as chamadas bets, o Viva Rio promoveu, na última quarta-feira (4), o 1º Seminário Redução de Danos & Saúde Mental, com o tema “O tempo não para: uso nocivo de bets e jogos de azar”. O encontro reuniu especialistas e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial e da Atenção Primária à Saúde de unidades sob gestão da instituição.
Com a presença de auditores do Tribunal de Contas da União, representantes das Secretarias de Saúde do estado e do município e profissionais de saúde, o seminário abordou os sofrimentos mentais relacionados a jogos e apostas, os desafios para a saúde pública, além de casos observados nas unidades de Atenção Primária e de Atenção Psicossocial. O objetivo foi trazer informações e pensar em estratégias de enfrentamento a esse problema de saúde pública, abordando diversos tópicos, como redução de danos, cuidado integral e intersetorial e acolhimento.
A dimensão desse cenário também se reflete nos dados sobre apostas online no país. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, realizada em novembro do ano passado, identificou 39,5 milhões de consumidores que fizeram ao menos uma aposta online nos 12 meses anteriores. Desse total, 29% já tiveram o nome negativado por dívidas relacionadas às apostas. Já um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) aponta um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS em razão da dependência de apostas online e jogos de azar nos últimos cinco anos.
Marcelo Chaves Aragão, auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) e redator do levantamento sobre os impactos das bets na saúde mental, destaca o aumento dos atendimentos na Rede de Atenção Psicossocial relacionados ao jogo patológico e o acompanhamento do plano de ação do Ministério da Saúde.
“O tema passou a fazer parte do radar do Tribunal de Contas diante do aumento expressivo dos casos de dependência em jogos. Nossa preocupação envolve não apenas a saúde pública, mas também o impacto financeiro nas famílias e outros aspectos perversos dessa lógica das bets, como a relação com o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Coordenei um trabalho para verificar em que medida o plano de ação do Ministério da Saúde consegue minimizar os impactos nocivos à saúde mental da população brasileira. Nosso papel é contribuir com esse debate, apontando riscos aos gestores”, destaca o auditor.
Maíra Matos, coordenadora de Saúde Mental do Viva Rio, reforça a importância do debate sobre os impactos das bets e da construção de estratégias de cuidado.
“Temos no Brasil um problema social decorrente de um capitalismo predatório, relacionado às apostas em bets. A pessoa se envolve nesse tipo de jogo acreditando em ganhos rápidos, mas acaba se endividando, prejudicando também sua família e suas relações. Isso pode gerar ansiedade, depressão e até tentativas de suicídio. Precisamos trabalhar o fortalecimento comunitário, promovendo a saúde mental e o convívio social, mas também pensar no cuidado de quem enfrenta problemas mais graves, com estratégias de redução de danos e alternativas para que essas pessoas encontrem outras formas de renda”, explica.
Também participaram Pedro Strozenberg, diretor-executivo do Viva Rio; Hugo Fagundes, superintendente da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro; Alexandre Giraux Cavalcanti, auditor-chefe da Unidade de Auditoria Especializada em Saúde do Tribunal de Contas da União; Daniel Elia, assessor na Superintendência de Atenção Psicossocial e Populações em Situação de Vulnerabilidade – SES/RJ; Eduardo Almeida, coordenador do Deambulatório Tia Nastácia; e Niara Felipe, assistente social no Centro de Atenção Psicossocial Paulo da Portela.
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Texto: Raquel de Paula
