Rede pública amplia assistência a autistas e soma quase 50 mil atendimentos em um ano no RJ

No mês de conscientização do autismo, serviços sob gestão do Viva Rio mostram impacto direto na vida de pacientes e famílias com atendimento humanizado e especializado

Criança realizando atividade no SAREM, em Maricá 

 

No encerramento do mês de conscientização do autismo, um dado evidencia o avanço da rede pública de saúde no atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA): apenas os serviços sob gestão do Viva Rio que atendem esse público ultrapassaram a marca de 49,8 mil atendimentos em pouco mais de um ano. O número considera o ano de 2025 e o primeiro trimestre de 2026 e revela não só a alta demanda, mas também a ampliação do acesso a cuidados especializados no estado do Rio de Janeiro.

Na Atenção Primária, o fortalecimento de serviços especializados tem sido fundamental para garantir diagnóstico precoce e acompanhamento adequado. Os Centros de Estímulo ao Desenvolvimento do Transtorno do Espectro Autista (CEDTEA), voltados para crianças e adolescentes, vêm se consolidando como referência nesse cuidado. Pioneiro na rede municipal, o CEDTEA localizado no Centro Municipal de Reabilitação Oscar Clark, no Maracanã, já realizou mais de 2 mil atendimentos em 2025 e outros 507 apenas no primeiro trimestre de 2026, com uma abordagem que integra diferentes especialidades. 

Para a psicóloga Fernanda Tolomei, esse tipo de serviço é essencial para garantir um cuidado adequado às especificidades do neurodesenvolvimento. “É fundamental que a população tenha acesso a um serviço especializado, voltado ao público infantojuvenil, que considere as diferentes habilidades, potencialidades e necessidades de suporte de cada indivíduo, com escuta qualificada e acolhimento na perspectiva da inclusão”, afirma.

Na Zona Norte, há também uma unidade localizada na Clínica da Família Felippe Cardoso, na Penha, igualmente sob gestão do Viva Rio. Os CEDTEAs contam com equipes multidisciplinares formadas por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, musicoterapeutas, nutricionistas, profissionais de educação física, psicólogos, terapeutas ocupacionais, psiquiatras e pediatras. 

O impacto desse acompanhamento é percebido diretamente pelas famílias. Vânia do Nascimento, mãe do Arthur, que faz acompanhamento no CEDTEA da Penha, comenta a importância do serviço para o desenvolvimento do menino. “Meu filho faz tratamento de reabilitação aqui e está sendo muito bem assistido. Ele tem tido avanços significativos, inclusive na fala. Ele não tinha amigos, tinha dificuldade de socialização, mas agora está começando a se comunicar melhor, o que está sendo muito bom pra ele. Agradeço a essa unidade pelo cuidado com meu filho”, relatou. 

Atividade no CEDTEA localizado no Maracanã, Zona Norte

 

Na Zona Oeste do município, o serviço está no Centro Municipal de Saúde Mário Rodrigues Cid e no Super Centro Carioca de Saúde, inaugurado em março deste ano. A expansão  tem como objetivo reduzir o deslocamento de moradores da região para outras áreas da cidade, ampliando o acesso ao tratamento especializado. 

Profissionais reforçam que o trabalho vai além do atendimento clínico individual. “O primordial é desenvolver um trabalho integrado, que articule diferentes áreas e promova o pleno desenvolvimento de crianças e jovens com autismo, envolvendo também suas famílias e toda a rede de atenção à saúde”, explica a fonoaudióloga Ana Paula de Oliveira.

Esse cuidado contínuo também se estende para além da capital. Em Maricá, as duas unidades do Serviço de Atendimento de Reabilitação Especial de Maricá (SAREM I e II) somaram mais de 39 mil atendimentos em 2025, além de quase 8 mil apenas no primeiro trimestre de 2026.

Voltados para crianças desde o nascimento até os 12 anos, oferecem serviços de reabilitação para os que apresentam necessidades especiais, temporárias ou permanentes, desde a identificação precoce até a reabilitação. É realizado com acompanhamento multiprofissional, que inclui as áreas de serviço social, psicologia, pedagogia, psicomotricidade e musicoterapia, além de articulação com escolas, rede de assistência social e sistema de justiça.

Para muitas famílias, o acesso a esse tipo de serviço representa uma virada de vida. Giovania Zulato, mãe de um dos pacientes, relata que o filho autista, que também fez uma cirurgia de encurtamento de tendões, chegou ao atendimento em cadeira de rodas e após o acompanhamento voltou a andar. “O SAREM foi um achado na nossa vida. Meu filho saiu de lá andando, graças aos profissionais. Sou muito grata por todo o acolhimento e cuidado que recebemos”, afirma.

Hospital de urgência e emergência da Zona Oeste adapta atendimento para autistas

No Hospital Municipal Albert Schweitzer, unidade referência no atendimento de emergência na Zona Oeste do Rio, a implementação de um fluxo diferenciado para pacientes com autismo já resultou em cerca de 2,5 mil atendimentos no último ano. A mudança, que prioriza esses pacientes logo na chegada, reduz o tempo de espera e a exposição a estímulos como ruídos intensos e grande circulação de pessoas, fatores que podem gerar desconforto e crises.

A iniciativa parte do reconhecimento de que o ambiente hospitalar pode ser desafiador para pessoas com TEA e reforça a importância de um olhar mais sensível e individualizado no atendimento. Durante a permanência na unidade, a sinalização específica nos leitos também orienta as equipes para uma abordagem ainda mais atenta, consolidando práticas de humanização no cuidado. 

Atendimento adaptado no Hospital Albert Schweitzer 

 

Aulas de inclusão digital para crianças autistas da comunidade do Cantagalo

As aulas de inclusão digital para pessoas atípicas foram criadas a partir da necessidade de ampliar e fortalecer os serviços já oferecidos pelo Viva Rio na comunidade do Cantagalo, na Zona Sul do Rio. A iniciativa surgiu após a identificação, nos encontros de mães atípicas promovidos pelo Núcleo de Desenvolvimento Social, da demanda por um suporte direcionado também às crianças. Em parceria com a Estação Futuro, o projeto foi estruturado com foco no desenvolvimento de habilidades por meio da tecnologia.

As atividades são adaptadas às necessidades individuais de cada aluno, considerando a diversidade do espectro autista. A metodologia utiliza jogos digitais e softwares educativos como estratégia pedagógica, com base na gamificação. Entre as ferramentas aplicadas estão os jogos Graphogame Brasil e Minecraft e a plataforma PhET, da Universidade do Colorado, que auxilia no ensino de ciências. O objetivo é estimular a comunicação e o raciocínio.

Confira abaixo mais fotos dos serviços. 

Texto: Raquel de Paula

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