
Ruy Junior, usuário do CAPS Mirian Makeba e membro de duas oficinas de geração de renda
Há seis anos, Ruy Victor da Silva Junior vivia em situação de rua. Dormia sobre um pedaço de papelão, na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, e evitava até olhar para si mesmo no espelho. Hoje, participa de oficinas de geração de renda realizadas em uma unidade de saúde mental, ajuda a produzir camisetas e bijuterias, representa usuários em eventos nacionais e afirma que foi durante esse processo que reaprendeu a organizar a própria vida.
A história de Ruy mostra o impacto das oficinas de geração de renda desenvolvidas em unidades de saúde mental administradas pelo Viva Rio, que unem economia solidária, cuidado em saúde e autonomia. “Foi um divisor na minha vida. Nem tanto pelo dinheiro, a geração de renda faz parte, mas digo mais pelo benefício terapêutico que a oficina nos traz. Passei a ter responsabilidade, me organizar melhor e ter um sentido na vida. Quando você começa a construir uma peça, está se construindo também”, conta Ruy.
Ruy Junior, de 55 anos, participa há cinco anos das oficinas Makeba Bijus (produção de acessórios em bijuterias) e Silk em Metamorfose (serigrafia em camisas e bolsas), que acontecem na UAA Metamorfose, Unidade de Acolhimento Adulto localizada em Olaria. A unidade é vinculada ao CAPS Mirian Makeba, onde Ruy é acompanhado. Atualmente, ele também é o representante dos usuários no Makeba Bijus.
Para ele, os benefícios das oficinas são muitos, desde se manter sem o uso de drogas até conquistar maior controle financeiro e planejamento de vida. “Estou há seis anos limpo, sem usar nenhuma droga. Em relação às finanças, dinheiro para mim era um vendaval. Nas oficinas fui aprendendo a dar valor ao dinheiro, a guardar, pensando no amanhã. Antes, eu pegava uma quantia na mão e, daqui a pouco, não tinha mais nada. Hoje tenho estabilidade, aprendi a controlar e dominar minha vida e meus vícios”, relata Ruy. O valor obtido nas oficinas complementa a renda dele, que também recebe um auxílio do governo.

Oficinas fortalecem inclusão e acesso a direitos
A oficina de Silk da UAA Metamorfose surgiu a partir da experiência do Makeba Bijus, criado em 2018 no CAPS Mirian Makeba. A técnica da serigrafia começou a ser desenvolvida em 2019 e, somente no último ano, o projeto vendeu cerca de 120 camisas e 100 bolsas. Já o Makeba Bijus produz entre 30 e 45 peças por mês e, desde a criação da oficina, já confeccionou, em média, 2 mil peças, entre colares, brincos e outros itens. As duas oficinas arrecadaram aproximadamente R$5 mil em vendas no ano passado.
Em 2025, 22 pacientes participaram das oficinas da unidade. Os produtos são vendidos sob encomenda ou em feiras e eventos dos quais as oficinas participam.
Márcio Santos, coordenador da UAA Metamorfose, reforça a importância das oficinas para os usuários. “É um espaço de geração de renda, encontro, inclusão, sociabilidade e acesso a recursos financeiros para os usuários que frequentam e para os acolhidos da unidade. Eles têm essa experiência do mundo do trabalho, que é negociado, protegido e apoiado. Mais do que produzir itens, o acesso à renda atua como um potente produtor de saúde e cidadania, permitindo que pessoas em situação de vulnerabilidade conquistem autonomia, organizem suas vidas e superem barreiras psicossociais”, relata.
Todo o processo das oficinas é realizado de forma coletiva, com a participação dos usuários e profissionais. “Até quando a gente vai fechar o mês vemos juntos quanto vai ser direcionado para cada espaço: 50% vai para o fundo de caixa e o restante a gente divide entre o pagamento dos usuários e a compra de material. Eles participam das compras, da produção, das vendas e do fechamento de caixa”, comenta Jessica Gondra, enfermeira do CAPS Mirian Makeba e responsável pelo Makeba Bijus.
A profissional também relata que, junto com os pacientes, ajuda a planejar a forma como o dinheiro das vendas será utilizado. “A gente também tenta elaborar e construir alguma coisa junto com eles, ver como estão pretendendo usar o dinheiro. Tentamos planejar com eles o uso do dinheiro, para que seja feito da melhor forma possível”, conta.
Outras unidades sob gestão do Viva Rio também realizam oficinas de geração de renda, como os CAPS Rubens Corrêa, Torquato Neto e Carolina Maria de Jesus. No primeiro, existe a oficina Rubens Saboaria, dedicada à produção e venda de sabonetes, que arrecadou mais de R$1.500 no último ano. Já no Torquato Neto, funcionam as oficinas Tá na Conta (artesanato e bijuterias) e Surto Criativo (confecção de bottons), além do bazar Brechó Neto, que em 2025 vendeu mais de R$2 mil em peças. Na unidade Carolina Maria de Jesus, a oficina é voltada para a confecção de chaveiros.
Para Ruy, cada peça produzida representa muito mais do que uma fonte de renda. “Hoje eu consigo olhar para mim e enxergar um futuro. A oficina me ensinou que sempre é possível recomeçar”, finaliza.
Texto: Raquel de Paula
