Clínica da Família da Maré amplia cuidado humanizado para gestantes com apoio de projeto de doulas

Mães solo e negras representam a maioria das mulheres atendidas pela ação 

A Clínica da Família Adib Jatene, no Complexo da Maré, sob gestão do Viva Rio, desenvolve uma parceria com o projeto Roda de Gestantes da Maré para ampliar o cuidado humanizado a mulheres em situação de vulnerabilidade social durante a gestação. O projeto, chamado “Gestar em Movimento”, já acompanhou 22 gestantes moradoras da Maré nos seis primeiros meses de atuação, quatro delas com acompanhamento de doulas durante o parto nas maternidades. 

O projeto promove encontros mensais de educação perinatal, abordando temas relacionados à gestação, parto e pós-parto, como fases e tipos de parto, presença de acompanhantes, elaboração do plano de parto e violência obstétrica. O objetivo da iniciativa é ampliar o acesso à informação, fortalecer a autonomia das mulheres e conscientizar sobre seus direitos. 

As mulheres atendidas na primeira etapa do projeto, que iniciou em novembro do ano passado, têm entre 18 e 35, 80% são pretas ou pardas, a maioria mães solo e moradoras das regiões de Vila do Pinheiro e Salsa e Merengue. Das 22 participantes, sete são gestantes de alto risco e 18 iniciaram o pré-natal ainda no primeiro trimestre da gravidez. A segunda etapa inicia em junho, onde serão selecionadas mais 20 mulheres. 

Segundo Shirley Brasil, responsável técnica de Enfermagem da Clínica da Família Adib Jatene, o grupo amplia o cuidado oferecido na atenção primária. “O Gestar em Movimento é uma potência porque une informação e acolhimento. O grupo faz com que a gestante se sinta autônoma no seu processo de parir. A educação perinatal ajuda a prevenir a violência obstétrica, que ainda é uma violência invisibilizada contra a mulher. Quando a gente muda o cenário do parto, muda uma vida inteira”, explica.

A enfermeira relata que uma experiência difícil durante a gestação e o parto foi o que despertou nela o desejo de atuar na qualificação do cuidado materno. “Minha própria experiência no pré-natal e no parto despertou em mim o desejo de transformar a assistência oferecida a outras mulheres no SUS. Fazer parte do Gestar em Movimento é mais do que trabalho, é uma realização de vida”, afirma Shirley Brasil, enfermeira e moradora da Maré. 

Edineide Pereira, doula do Roda de Gestantes da Maré e moradora da comunidade, destaca que o projeto surgiu da necessidade de garantir acolhimento e informação às mulheres da favela. “É de suma importância que gestantes da favela tenham uma doula para se informar e se sentir cuidada. A maioria delas não tem rede de apoio. As doulas que conduzem o projeto são, em grande parte, moradoras da Maré e sabem exatamente o que as mulheres sentem e precisam”, afirma. 

A jovem Gabrielle de Lourdes, de 24 anos, mãe de Gael e Téo, participou do grupo durante sua segunda gestação e foi acompanhada pela doula Edineide no parto. “Na minha primeira gravidez eu não tive esse apoio. Eu sou mãe solo, fui abandonada na minha gestação, o que acontece com muitas mulheres. A gente se sente muito sozinha. Mas quando conheci a Edineide e a Shirley me senti mais abraçada e segura. A Edi me passou confiança o tempo inteiro durante meu parto, parecia alguém da minha família”, relata.

Criada em 2015 por um grupo de doulas, a Roda de Gestantes da Maré promove encontros de educação perinatal e rodas de conversa em diversos espaços. O papel das doulas é oferecer suporte emocional, físico e as informações necessárias para que a gestante tenha garantido seu direito de uma gravidez com tranquilidade e cuidados. 

Dados do Viva Rio mostram que, apenas em maio deste ano, 2.796 puérperas estão em acompanhamento nas 76 unidades de atenção primária sob gestão da instituição no município do Rio de Janeiro, além de nove mulheres privadas de liberdade. Nas áreas atendidas, as mulheres negras representam 71,75% das pacientes, e mais da metade tem entre 20 e 29 anos (54,15%). O levantamento também revela que 20,82% das puérperas são analfabetas, apenas alfabetizadas ou não concluíram o ensino fundamental, dado que evidencia a vulnerabilidade social presente nos territórios assistidos, localizados nas Zonas Norte e Oeste da cidade. 

Na Maré, onde há 103 puérperas sendo acompanhadas pelas equipes do Viva Rio, fatores como violência armada, dificuldade de acesso às maternidades e vulnerabilidade social impactam diretamente a continuidade do pré-natal e o cuidado no pós-parto.

Confira abaixo mais fotos da atividade.

Texto: Raquel de Paula

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