Quase 400 adolescentes grávidas são acompanhadas em unidades sob gestão do Viva Rio

Mais de 90% vivem em territórios vulneráveis da cidade do Rio de Janeiro 

Foto: Ueslei Marcelino, UNICEF

 

O número de gestações precoces no Brasil é chocante. No país, uma em cada 23 adolescentes entre 15 e 19 anos torna-se mãe a cada ano, de acordo com estudo da Universidade Federal de Pelotas. A pesquisa aponta que entre 2020 e 2022, mais de 1 milhão de jovens nessa faixa etária tiveram filhos. Enquanto entre meninas de 10 a 14 anos, o número passou de 49 mil. 

No Rio de Janeiro, os números também são altos: em 2025, cerca de 5,2 mil adolescentes cariocas deram à luz, sendo 181 menores de 15 anos, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde. Nas 76 unidades básicas de saúde administradas pelo Viva Rio no município, 386 adolescentes grávidas estavam em acompanhamento em janeiro deste ano, a maior parte, em média 73,8%, tem 16 e 17 anos, seguido de 15,4% com 15 anos, 7,1% com 14 anos e 3,7% com 13 anos. 

A pesquisa feita pelo Viva Rio considerou meninas de 13 a 17 anos, atendidas em unidades básicas de saúde sob a gestão da organização na Grande Tijuca, na Zona da Leopoldina e parte da Zona Norte e na Zona Oeste, principalmente Campo Grande e Guaratiba. O levantamento aponta que mais de 90% das adolescentes gestantes acompanhadas vivem em territórios vulneráveis (50,5% na Zona Norte e 42,7% na Zona Oeste – majoritariamente em favelas). Nessas áreas, um terço das famílias somam até dois salários mínimos em seu orçamento total e cerca de 25% das famílias com grávidas adolescentes recebem algum benefício social.

Os dados mostram ainda que apenas 2,3% das adolescentes acompanhadas pelas equipes do Viva Rio utilizam algum método contraceptivo. O uso de preservativos masculino e feminino também é baixo, 6,2% em média, o que alerta para os riscos de transmissão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). 

Uma medida adotada pelo SUS no município do Rio para reduzir o número de gestações precoces foi a ampliação da oferta do Implanon (contraceptivo de longa duração) no segundo semestre do ano passado. Consiste em um pequeno dispositivo inserido sob a pele do braço que, durante três anos, libera o hormônio etonogestrel que impede a ovulação e evita a gravidez. 

Marianna Rocha, gestora de Contratos em Atenção Primária à Saúde no Viva Rio, comenta a importância dessa ação. “O método apresenta eficácia superior a 99%, duração de até três anos, baixa dependência do uso correto pela usuária e rápida reversibilidade após a retirada. Essas características o tornam especialmente indicado para adolescentes, grupo no qual a adesão contínua a métodos de curta duração costuma ser mais instável. Na Atenção Primária, as equipes estão sendo capacitadas para a inserção do método e estamos priorizando adolescentes em situação de maior vulnerabilidade social. A estratégia tem sido acompanhada por ações educativas, com aconselhamento individual e coletivo, para garantir que a escolha do método seja informada, voluntária e alinhada às necessidades de cada adolescente”, comenta. 

A profissional reforça que a redução da gravidez na adolescência não se limita à saúde pública, sendo necessárias políticas em outras áreas para que a ação seja, de fato, eficaz. “Essa questão exige uma resposta integrada, territorializada e intersetorial. A expansão do acesso ao Implanon e a outros métodos contraceptivos eficazes aliada a ações educativas, ao fortalecimento da Atenção Primária e ao enfrentamento das desigualdades sociais constitui um caminho essencial para garantir às adolescentes o direito de decidir, com segurança e informação, sobre seus corpos e seus projetos de vida”, finaliza. 

Todos os dados levantados pelo Viva Rio estão disponíveis na Biblioteca Viva, espaço onde são divulgados relatórios, infográficos, publicações e pesquisas. Já foram disponibilizados materiais sobre a população em situação de rua no Rio, as ondas de calor e a saúde mental nas prisões femininas, por exemplo. 

Texto: Raquel de Paula

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