O encontro reuniu especialistas, profissionais da saúde, gestores públicos e sociedade civil no Instituto Nise da Silveira

Margarete Brito, diretora da APEPI, Thiago Lins, coordenador de Saúde Mental de Búzios, e Carlos Vasconcellos, médico sanitarista, fizeram parte da primeira mesa de debates
O Viva Rio promoveu, nesta quinta-feira (26/03), o evento “Bruta Flor II – Caminhos para o possível”, que debateu o uso da cannabis medicinal em territórios vulnerabilizados, como favelas e periferias do Rio de Janeiro. O encontro aconteceu no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio, e reuniu especialistas, profissionais da saúde, gestores públicos e representantes da sociedade civil para discutir os desafios e avanços do tema no país.
Mais de 130 pessoas participaram do evento, que foi gratuito e teve como objetivo ampliar o debate público sobre cannabis medicinal, especialmente no contexto dos territórios, qualificar profissionais e conectar diferentes perspectivas da ciência, da saúde e das políticas públicas.
Participam do encontro Romário Nelvo, antropólogo e professor doutor no Instituto de Medicina Social da UERJ; Carolina Rocha (Dandara Suburbana), escritora e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER); Henrique Vieira, pastor e deputado federal; Margarete Brito, diretora da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis (APEPI); Thiago Lins, coordenador de Saúde Mental de Búzios; e Carlos Vasconcellos, médico sanitarista.
A programação incluiu discussões sobre judicialização do acesso a medicamentos à base de cannabis e experiências com produtos derivados da planta no SUS, a partir de casos concretos de implementação de políticas públicas no estado do Rio de Janeiro, nos municípios de Búzios e Volta Redonda.
Em Búzios, a rede municipal de saúde já avançou na distribuição de cannabis medicinal, com a oferta de óleo para crianças e adolescentes com condições como epilepsia e autismo, além da estruturação de um modelo de cuidado que envolve diagnóstico, prescrição e acompanhamento na Clínica Beija-Flor, que já atendeu mais de 3 mil pessoas desde sua inauguração, em 2024. O projeto também atende 200 pessoas com um auxílio de R$ 300 para a compra dos produtos.
Thiago Lins, coordenador de Saúde Mental de Búzios, comenta o que precisa ser feito para ampliar a oferta do medicamento nas unidades públicas de saúde. “A gente precisa avançar na pesquisa científica e na produção de conhecimento, sistematizando evidências clínicas por meio de estudos e publicações. À medida que esses resultados sejam comprovados, o SUS deve garantir o acesso democrático a produtos à base de cannabis, com financiamento próprio nas esferas municipal, estadual e federal”, reforça.
Já Margarete Brito, fundadora e diretora da APEPI, ressalta que para ter esse tratamento no SUS, é preciso um grande preparo. “É muito bonito falar de cannabis no SUS, mas não é simples. Não podemos romantizar: antes de garantir o acesso, é preciso investir em formação e estrutura, porque se trata de um cuidado complexo, que exige uma rede multiprofissional e não apenas a prescrição médica. Sem essa base, a política não se sustenta e pode dar errado”, destaca.
Durante o encontro também foram debatidos os estigmas e preconceitos que ainda cercam o uso da cannabis, frequentemente associada ao tráfico de drogas e ao uso recreativo, além dos desafios morais que atravessam o tema. Essas questões impactam diretamente o acesso à informação e o conhecimento sobre o uso da maconha para fins medicinais, além de dificultar o avanço de políticas e práticas baseadas em evidências.
“O Bruta Flor II trouxe para o debate da cannabis medicinal temas como território, saúde mental, gênero, raça e religião, além do proibicionismo e da violência da guerra às drogas, pautas centrais para o Viva Rio, que historicamente defende uma política de drogas mais inclusiva. A instituição também reforça a importância de ampliar pesquisas com respaldo científico, promover debates que enfrentam o estigma em torno da cannabis e compreender a quem interessa sua manutenção, bem como valorizar a força das associações e as possibilidades de cuidado em rede, em diálogo com a atenção psicossocial”, destaca Maíra Cabral, coordenadora de Saúde Mental do Viva Rio.
O “Bruta Flor II” é o segundo de uma série de encontros organizados pela área de Saúde Mental do Viva Rio sobre o uso medicinal da cannabis nas favelas cariocas. A iniciativa teve sua primeira edição em novembro de 2025 e prevê ainda mais um evento neste ano, em junho. O projeto conta com a parceria da Secretaria Municipal de Saúde, da Rede de Atenção Psicossocial do Rio, da AbraRio, da Fiocruz e da APEPI.
Confira abaixo mais fotos do evento.
Texto: Raquel de Paula
